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Violência contra médicos - precisamos falar sobre isso.

  • Foto do escritor: Kyze
    Kyze
  • 28 de mar.
  • 3 min de leitura

Atualizado: 29 de mar.

No período mais crítico da pandemia de COVID-19 (2020), houve uma mobilização popular em “reconhecimento” ao sacrifício dos “trabalhadores essenciais”, como os profissionais da saúde (aqui falarei da minha categoria, pois é a realidade que conheço). Naquela época, éramos chamados de heróis – título que sempre recusei, pois passava a impressão de que podíamos suportar tudo – os sacrifícios pessoais, a exposição ao vírus, as jornadas exaustivas, as mortes aos montes – incólumes, como se fôssemos dotados de algum superpoder. Toda volta do trabalho, gerava um sentimento de pesar, ao ver pessoas burlando as medidas de segurança para frequentar bares, ou formando filas para comprar chocolate para a Páscoa. Essas pessoas, em outro momento, estariam invariavelmente formando filas nos serviços de saúde, seja para atendimento pessoal, ou para saber notícias do ente querido que contraiu o vírus, levado dos bares ou das filas de chocolate, e manifestou infecção grave com risco de óbito. E os aplausos e brados nas varandas e sacadas que, além de perturbar meu necessário descanso, reforçavam a minha percepção da sociedade traduzida em uma frase dita por Ney Matogrosso, em uma entrevista a qual assisti há muitos anos, e que jamais esqueci: “A hipocrisia comanda o espetáculo”.

“Corta para” 2022, 2023, 2024, 2025, 2026... A volta à “normalidade”.

A partir de meados de 2022, o vírus ainda se espalhava e ainda matava, mas infinitamente menos que os anos de 2020 e 2021. Atualmente, muitos acreditam que já não oferece mais nenhum perigo (para a maioria, de fato há uma redução na letalidade, mas, para os grupos de risco, cautela ainda se faz necessária) e seguem vivendo suas vidas como se nada tivesse acontecido, enquanto eu ainda saio de casa usando máscara e sou julgada como se fosse um ser de outro mundo: “COVID ainda existe?”, questionam alguns, em tom de deboche.

Nos últimos anos, com a ampliação do uso de redes sociais, tenho acompanhado estarrecida as denúncias de violência contra médicos exercendo sua função. Os aplausos dirigidos aos “heróis da pandemia” deram lugar a todo tipo de agressão (física, verbal, moral...) direcionada aos “mercenários” que “abandonam o plantão” para ir ao banheiro, ou para beber água, se alimentar, repousar; ou ainda àqueles “desumanos” que recusam o atestado médico, porque “como eu não consegui ir ao trabalho e passei o dia sei lá onde, decidi vir ao atendimento à noite/de madrugada, sem nenhum sinal aparente de adoecimento que necessite de repouso - portanto  de afastamento -, mas exijo atestado para não perder o dia trabalho, porque os problemas da legislação trabalhista se resolvem com um atestado médico, ainda que não indicado” – afinal, “não custa nada”. São serviços de pronto-atendimento (urgência/emergência) lotados de “fichas” de atendimento administrativo, gerando filas gigantescas e longas esperas, que resultam em mais pressão para os profissionais que já estão na porta exauridos. As consequências: na rede pública, os médicos, no exercício de sua função, muitas vezes são humilhados pela população, por figuras políticas e até por agentes de segurança... na rede privada, aqueles que não colocam os interesses de mercado das instituições acima das boas práticas e da ética médica, frequentemente são descartados como um papel usado para rascunho e sem qualquer direito trabalhista garantido. Nos consultórios, colegas à beira da exaustão, porque o paciente acha que pagar por uma consulta dá direito a dedicação exclusiva, e “ai do médico” que não se coloque à disposição para atender ligação ou responder mensagens a qualquer hora e em qualquer lugar... condicionar emissão de documentos e prescrição a uma avaliação direta (conforme preconiza nosso código de ética), então, nem pensar!! – isso é tão desumano. Afinal, “é só uma renovação de receita”.

Recentemente, um médico, no exercício da função, foi imobilizado, sem aparentar resistência ou ameaça aos guardas que o algemaram e conduziram a delegacia (veja a matéria aqui). Cenas impactantes, que mostram o quanto estamos reféns dessa guerra velada declarada contra a categoria. Não podemos normalizar essas atitudes. Não podemos aceitar a precarização (ainda maior) das condições para o trabalho.

Não preciso de aplausos por fazer o meu trabalho – afinal, não é mais que a minha obrigação. Como médica, tudo o que quero é poder exercer minha profissão com dignidade e respeito – a mesma com a que trato todas as pessoas –, com leveza e segurança e não com medo de ser agredida e humilhada.

Minha solidariedade a todos os colegas que foram vítimas de violência no trabalho.

 

  • Em tempo, não tenho intenção de generalizar atitudes. Há muitas pessoas que ainda respeitam o trabalho dos médicos (e isso não tem preço) e, infelizmente, há “técnicos em medicina” que não fazem jus ao nosso juramento. O objetivo aqui é denunciar um problema específico e muito grave, que está aumentando desenfreadamente, acarretando prejuízos para a categoria e para a população.  

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